MANIFESTO (Parte 6/7)

RITO E LITURGIA

É urgente voltar a tornar os rituais em sistemas operativos iluminatórios e transmutatórios, mágicos e iniciáticos, e romper com as liturgias de entretenimento intelectual e os teatros de retórica cívica e cristã. É necessário semear Novos Impulsos de Despertar. No homem e mulher de hoje por detrás de sua necessidade espiritual, quando não se revê nos modelos obsoletos de espiritualidade do Velho Aeon, permanece a Reminiscência e o Chamado de uma Nova Vida Espiritual. Ela já não está refém do Cristianismo, nem das velhas e serôdias religiões monoteístas, mesmo aquelas que como o Judaísmo Herético incentivaram percursos de Despertar como a Cabala.

As Obediências deixaram de ser Iniciáticas para se paralisarem no estado vegetativo e amorfo das associações fraternais e filosóficas, em clubes filantrópicos equivalentes aos clubes burgueses de velhos sonolentos e respeitáveis plebeus, presos na estupidificação do moralismo populista do establishment. É, por isso, que as Obediências não sabem responder a este novo estado de consciência pós-cristão e pós-político em que vivemos, ao desafio da actual mutação histórica. Pensam que a reacção é recuar e descer ao nível do ideal humanista herdado do Iluminismo do séc. XVIII e da tradição jacobina francesa.

O próprio Cristianismo necessita de ser revisto e revertido numa nova dimensão gnóstica. Não já apenas na versão caseira e catequística de Louis Claude Saint-Martin, mas à luz das descobertas dos Manuscritos do Mar Morto e da biblioteca de Nag Hamadi. A humanidade actual traz a Vocação para Processos Iniciáticos que exigem uma transformação holística total do ser humano e não uma obra fraturada pelo peso anacrónico do dualismo monoteísta judaico-cristão.



RECRUTAMENTO

O ser humano tornou-se um autómato sem autoconsciência. A sua única consciência é a consciência gregária e social. Daí a ênfase em Justiça, Moral, Humanismo, em obediências maçónicas que nada representam em sentido iniciático senão uma aparência formal de títulos vazios de espírito e de formas rituais obsoletas. O Ter sobrepôs-se sobre o Ser: ter conhecimentos livrescos e títulos ocos, sob o ponto de vista de sua função espiritual, em vez de Ser. Isso põe, sem dúvida alguma, um grande problema ao recrutamento feito pelas Obediências que são verdadeiramente Iniciáticas e não formas clubísticas de entretenimento cultural que satisfazem apenas o “eu inferior”, moral e racional, de seus membros titulares. Isto permite que haja um território muito vasto e rico de recrutamento para as Obediências Profanas e Apócrifas que oferecem a ilusão de um clube privado, ilustre pelos seus títulos ocos e a promessa da aquisição de um estado de nobreza moral. As Obediências crescem, por isso, na cultura do establishment cultural neo-liberal como fungos de pestilência espiritual no mundo de hoje. As Obediências tornaram-se colmeias sociais onde as abelhas repetem uma rotina ritual de procrastinação espiritual.

Nem todos os homens e mulheres têm “qualificações” para serem mais do que homens e mulheres, para serem Iniciados. Ter qualificações para serem melhores homens e melhores mulheres e seguir o caminho de aperfeiçoamento psicológico típico das correntes das psicologias humanistas e transpessoais da actualidade não os transformam em Iniciados. Aqueles que hoje se chamam Iniciados nas instituições maçónicas e da velha guarda rosacruciana são apenas pessoas de bom carácter que parodiam credulamente, com o típico carnaval maçónico de graus e aventais sumptuosos, uma condição espiritual que lhes é totalmente recusada. Estes homens e mulheres são apenas actores amestrados no grande teatro da alienação obediencial.

Só se é qualificado para ser Iniciado quem já tomou consciência da falência total da consciência social onde está adormecido, quem tem a consciência apocalíptica de que o homem está a morrer na amnésia e mumificação do chamado homem cívico e político. Quando se é cônscio desse estado de Queda, chega-se ao limiar de uma consciência apocalíptica que a tradição joaquimita colocava sob a Lei do Amor e do Espírito Santo e, mais recentemente, Aleister Crowley sob a “Lei do Amor sob a Vontade”.

O genuíno Memphis-Misraim não tem interesse algum em salvar o mundo. Nem tem preocupações humanistas de nenhum teor. Só estamos interessados em chegar a um pequeno número de pessoas libertas do efeito intoxicante e alienante do moderno zeitgeist e de tudo que é mainstrean, o que chamamos o espírito de manada. Somos aqueles que na tradiçao prometeica e faústica vão contra a corrente da manada e para quem o processo iniciático do Memphis-Misraim é, como o defendia Alessandro Cagliostro, de natureza mágico-alquimico e destinado à ultrapassagem de si mesmo na pura Ipseidade.

Para o Soberano Santuário hermético da Lusitânia é muito mais importante o poder subversivo de natureza mágica e espiritual gerado por um pequeno número de Iniciados, centrados no mesmo objetivo ideal, do que um grande número de membros mentalmente obesos, indiferenciado e superficial, vivendo o paradigma acéfalo de manada típico das maçonarias de hoje. O Memphis-Misraim representado por nós não é para a maioria, mas apenas para uma minoria. Somos orgulhosamente uma Elite de Espírito.

As maçonarias estão mais interessadas em validar o seu sistema decrépito, sob o ponto de vista exotérico, baseado em alegadas derivações históricas do seu lendário e inautêntico Passado do que no trabalho prometeico de revulsão mágica e espiritual do Iniciado Hermético em Deus. Elas abdicaram há muito do Trabalho Esotérico que reduzem por conveniência a uma hermenêutica intelectual de rasa análise simbólica nas suas pranchas quinzenais de onde está completamente ausente o Despertar. A Iniciação transmite o Poder para o Despertar. Esse Poder deve funcionar como um vírus que tem o poder de alterar a infraestrutura da personalidade e o seu zeitgeist. Numa tradição cainita ela deve matar Abel, o Ego, e pela Fórmula da Fénix criar a partir de suas cinzas alquímicas um Novo Homem divinizado e livre, tanto das religiões como dos humanismos pietistas e humanitaristas.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

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