Manifesto (Parte 5)

TRADIÇÃO E LINHAGEM

A palavra Tradição tem sido fundamental no Esoterismo. Como o Esoterismo refere-se a um estado supra-humano é concebível que a Tradição seja o seu elemento eterno e vivo, imune às mudanças de perspectiva religiosa ou racional advindas do Mundo do Devir. Embora sendo supraracional, a maioria das vezes ela solidifica na Doutrina e anquilosa no Rito como uma metástase. Porém, a sua natureza só é verdadeiramente apreensível pela ambivalência dos símbolos e por uma atitude não-racional.

Mais do que nunca, quem convoca em si mesmo o estatuto de homem Livre em Loja tem de ter consciência que no Processo Esotérico ser Livre é estar livre dos determinismos da razão e do meio, como dos valores que o socializaram. Daí a tendência da Tradição em ser vista como Eterna e Primordial, ser a Raiz de todas as Linhagens que dela emana. Entre a Tradição, verdadeiro centro supraracional e transpessoal e as tradições múltiplas definidas pelos usos, hábitos e costumes que para ela se criam, para conter a Força Epifânica que dela emana como de uma fonte, deve permanecer sempre uma Linha de Continuidade. Essa Linha de Continuidade é mantida pela sinergia da “massa crítica” dos Mestres Despertos. Não havendo nem Mestres Despertos nem a necessária “massa crítica”, quebram-se os elos psíquicos e gnósicos e a Obediência cristaliza cancerigenamente em estruturas sociais espiritualmente moribundas como vemos nas Maçonarias Profanas.

A essa linha de continuidade mítica de carácter vertical nós chamamos a Linhagem. Assim, podemos falar de uma Linhagem Cainita na Franco-Maçonaria, por exemplo. Porém, é inevitável que um dia todas as Linhagens se contaminem de interferências doutrinais exógenas à própria Linhagem, como aconteceu, por exemplo, ao Cristianismo pelo Neoplatonismo. É quando se define a Linhagem como um processo diacrónico exterior e temporal emanado por sucessivas transmissões históricas de um ponto de origem abstracto ou mítico, que menos possibilidade existe dela permanecer pura e perfeita. Todas as tradições maçónicas estão contaminadas de interferências exteriores e a reacção natural desde o séc. XVIII tem sido em manter os ritos intocáveis e fossilizados sob o ponto de vista formal, vigiando a credibilidade administrativa das linhas de transferência horizontal entre os diferentes Iniciados.

A Linhagem Iniciática é essencialmente vertical e não horizontal e diacrónica, como erradamente se pensa. Daí algumas vezes as filiations de désir  terem acesso a dimensões esotéricas e sapienciais de uma linhagem que escapam muitas vezes aos seus representantes formais. A emergência da paramaçonaria emergiu do anquilosamento formal das maçonarias em estruturas profanas. Tudo isso quer dizer que o que faz a autenticidade da maçonarias não é a estrutura abstracta, formal e social de seus usos, doutrinas  e costumes, mas é a sinergia criada pelas pessoas Iluminadas.  A Linhagem Horizontal é uma ilusão da mente profana que pensa de forma linear e dialéctica, presa no tempo e na sua dimensão histórica. A Linhagem Iniciática advém da relação explosiva, sob o ponto de vista gnóstico, entre a força da inércia da sua circulação temporal de Iniciado para Iniciado e a força de sua capacidade, maior ou menor, para participar no élan vivificante e iluminativo da sua comunhão verticalizante com o Intemporal, onde se mantém genuína toda a Tradição Primordial.

Quando alguém transmite a Iniciação, mas não tem a capacidade para se elevar à dimensão supraracional de onde emerge a Tradição e é incapaz de a Evocar no cerne da transmissão ritual durante a Iniciação, apenas faz uma transferência formal, meramente teatral, sem a Semente-Pneuma de Transformação que deveria brotar do cerne inconsciente e transpessoal do Iniciado. Esse é o problema das Maçonarias Profanas: de Iniciados que não são realmente Iniciados, mas que alegam ser Veneráveis Mestres com a conivência da Obediência. A Iniciação torna-se, então, o mimetizar de um Ritual de Transmissão. A forma como a transmissão iniciática se faz, respaldada nas formulações irresponsáveis de René Guénon, por detrás das quais se escondem para legitimar a sua impotência e baixo nível iniciático, tem mantido as estruturas iniciáticas maçónicas anquilosadas e representadas em pessoas iniciaticamente incapazes, mesmo que muito respeitáveis sob o ponto de vista social.

O Esoterismo é Poder, como dizia Schwaller De Lubickz. Não é a Moral que define e determina a operatividade dos Ritos Iniciáticos, mas o Poder Mágico e Teúrgico. Daí que as estruturas maçónicas estejam hoje degeneradas com pessoas sem qualquer tipo de carisma ou baraka, isto é, sem Poder Espiritual ou Gnose. Contudo, estão convencidas pela ingénua crença da sua elevação moral de terem a elevação dos graus que lhe foram confiados e transmitidos, mas dos quais nada mais possuem do que títulos honoríficos vazios. É a realização das virtualidades recebidas por um Iniciado durante a Iniciação que lhe permite, pelo trabalho sem descanso e, depois, pelo combate contra a natureza inercial do seu ego, aceder à dimensão noética e suprarracional de onde a Tradição Primordial é bebida ou dada a beber.

Na verdade, René Guénon, Iniciado do Rito de Memphis-Misraim, desvirtuou a natureza operativa e substantiva da Iniciação baseando-se no modelo de ordenação religiosa da Igreja Católica. Ele permitiu que se mantivesse a ideia falaciosa de que os rituais maçónicos transmitiam uma Influência Espiritual de carácter anagógico e epifânico, mesmo que aqueles que os transmitem não tenham qualquer competência cognitiva suprarracional para o fazer, nem tão pouco a experiência da sua elevação. Criando o conceito de que toda a transferência iniciática é apenas formal e virtual, meramente material, não necessitando que o Iniciado transmissor detenha a competência e realização iniciática para o fazer, desde que se tenha mantido o rito inalterado e o mimetize, sem a mudança de uma só linha, criou-se uma situação de total irresponsabilidade para todo o Iniciado e a entropia na mumificação formal dos seus ritos.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

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Parte 6/7: RITO, LITURGIA E RECRUTAMENTO