MANIFESTO (Parte 4)

REGULARIDADE E LEGITIMIDADE

De todos os ritos das Obediências maçónicas o Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraim foi o único que ao longo dos últimos séculos se recusou a fossilizar, tanto em modelos obsoletos de regularidade maçónica como em rituais imutáveis e desfasados da consciência humana. Não me refiro obviamente ao rito patrocinado pela Grande Loja de França que usa erroneamente o nome desta Linhagem. Lembremos que o Rito Egípcio do G∴O∴L∴ é apenas o Rito de Memphis reduzido a 33 graus, rebaixado a uma fórmula que diríamos com ironia ser de Iniciação prêt-à-porter.

Desde o século XX que tanto a revisão do 66º feita por Jean Bricaud, tornando-o num sistema de unção episcopal e colocando o Memphis-Misraim na órbita de um rito subjugado a um ideal gnóstico, como depois nas reformas que Robert Ambelain fez ao descritianizar o Memphis-Misraim e tornando-o a antecâmara da Iluminação teúrgica, assim como as mutações radicais feitas nos Ritos por Rudolf Steiner entre 1904 a 1914, até à integração por Michael Bertiaux da tradição menfítico-misraínica num sistema de Ordenação Episcopal, fundada na teoria dos chamados points-chauds, provou que a tradição de Memphis-Misraim recusa a morrer e mumificar nas estruturas dormentes das Maçonarias Profanas que hoje conhecemos.

Mesmo que não concordemos com a última opção de reduzir o Memphis-Misraim a um sistema de consagração episcopal, fazendo tabula rasa do que é realmente a Iniciação e confundindo processos sacramentais com processos iniciáticos, processos sacerdotais com processos heróicos e aristocráticos, não percebendo o sentido dos seus postulados prometeicos de Iluminação, não podemos deixar de ver nela um impulso de mudança.

Em alguns casos esse impulso raia a demência. É o exemplo de vários casos conhecidos como o de Maria Casado Montleon em Espanha e o de Frank G. Ripel em Itália, por exemplo, associado ao tráfico de patentes e graus que tem assolado com insanidade esta Tradição. No entanto, esta demência revela que algo de muito poderoso se encontra por debaixo desta Corrente Iniciática que quer emergir do fundo arcaico da nossa psique, desse lugar de onde nascem regularmente os Sonhos e os Mitos, tal e qual como o Cthulhu do contista Howard Phillips Lovecraft.

A Regularidade deve ser definida não em função de decretos administrativos, preceitos regulamentares, preconceitos e crenças religiosas ou cívico-sociais, mas em função de processos teúrgicos de transmutação físico-espiritual, isto é, em função do esforço de cada Iniciado em vista a desencadear em si mesmo uma mudança radical da sua consciência meramente humana, que o coloque na posição de balança e equilíbrio entre o mundo espiritual infra-humano de recuo à Origem (Caminho de Mão Esquerda) e supra-humano de avanço ao Um (Caminho de Mão Direita).

Toda a Obediência Maçónica que abdicou do dever de Despertar é irregular sob o ponto de vista Iniciático, mesmo que seja historicamente legítima. A legitimidade formal muitas vezes nada tem a ver com a legitimidade iniciática. A criatividade e intensidade espiritual vivida em Iniciações do tipo de filiation de désir, muito em voga, por exemplo, nos agrupamentos martinistas, revela que a utilidade espiritual dos processos de legitimidade formal têm de ser repensados. É muito raro que as duas dimensões de Legitimidade, a adjectiva e a substantiva, coincidam nas estruturas históricas da Maçonaria. A legitimidade formal de transmissão raramente significa Autenticidade Iniciática. Nestes casos apenas significa respeitabilidade exterior fossilizada em ritos monocórdicos e já ossificados, em quem abdicou de ser mais do que humano.

O que hoje chamamos Maçonarias Regulares são na verdade metástases de uma formalidade legal de onde está totalmente ausente a Autenticidade Iniciática. Para haver Regularidade Iniciática, isto é, para se usar a Régua, tem de haver não só regularidade formal como autenticidade iniciática. A verdadeira regularidade emerge de ambas simultaneamente, da união do esquadro e do compasso, do microcosmo com o macrocosmo. Onde uma ou outra está ausente não há Regularidade.

Não é estranho, por isso, que muitos dos defensores da Maçonaria dita Tradicional, definição retórica para cristalizações de carácter organizativo e de índole religiosa e burguesa, usada aqui a expressão no seu sentido sartriano, se baseiem no modelo iniciático definido por René Guénon. Foi René Guénon quem contribuiu para a fundamentação da reprodução e degeneração em cadeia da Maçonaria. Ao exigir para a sua regularidade apenas que o rito se transmita segundo as regras formais e qualificações constitucionais, independentemente da realização iniciática e da conclusão iluminativa dos seus Mestres, permitiu que os seus membros abdicassem do dever inalienável de auto transmutação, vegetando com devoção e procrastinação em comportamentos rituais vazios e serôdios. É preciso mais do que nunca abdicar desse esquematismo mental de René Guénon e libertar as estruturas maçónicas do aniquilamento em que ele as sepultou.

A essência da Maçonaria deve ser definida pelo Dever de Trabalhar para a Transmutação do Eu socialmente padronizado em favor de uma futura união revolucionária do Corpo e do Espírito. Para isso é necessário haver um investimento dinâmico da Vontade na auto-transmutação da Consciência. Não há verdadeira Regularidade Iniciática em nenhuma Obediência Maçónica que tenha abdicado do dever inalienável de trabalhar e combater para o Despertar Transfiguratório do Iniciado e tenha degenerado na defesa pública das forças inerciais tanto da religião como da sociedade política, por muito legítimas que sejam à luz dos decretos e constituições que as criaram. A não ser que entendamos que os seus rituais de Iniciação se tenham transformado em meros Ritos de Passagem fornecendo uma forma solene de incorporação de seus candidatos na estrutura clubística e corporativa. Na verdade, os ritos tornaram-se Iniciáticos apenas no seu sentido sociológico, exterior, como uma forma de integração solene na estrutura corporativa dos associados.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

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Parte 5 – TRADIÇÃO E LINHAGEM