MANIFESTO (Parte 3)

INICIAÇÃO E ORDENAÇÃO

O homem é uma larva sob o ponto de vista espiritual, mas não há nada que faça por nós o esforço para nos transformarmos em borboletas. Como o monge e filósofo Pelagius (c. 360–418 AD) rejeitamos a Teoria da Graça e a perpétua procrastinação da Iluminação através de rituais que são mera retórica teatral da Salvação. O Iniciado dos Graus Simbólicos da Maçonaria é aquele que desbasta a Pedra Bruta da personalidade para que ela se torne depois o veículo para as Forças Espirituais e possa prosseguir até aos Graus Superiores da Cavalaria Espiritual.

O Cavaleiro é aquele que conquista os estados elevados de consciência que estão no quadro das possibilidades latentes da sua Humanidade e ainda não foram actualizados. Só os Graus a partir do 33º relevam de estados não-humanos inacessíveis à condição da humanidade actual. Eles desvelam as forças Daimónicas que no passado guiaram Sócrates e Empédocles, que existem nas zonas obscuras do nosso inconsciente antropológico. Porém, nestas Ordens, eles são apenas títulos honoríficos vazios, sem conteúdo espiritual, mera verborreia e insânia narcísica.

As Obediências mantiveram o mimetismo dos lepidópteros. Os seus rituais parodiam com crédula veneração a Morte e a Ressurreição do Iniciado, mas são incapazes de passar para lá do simulacro do teatro. Eles são incapazes de fazer ascender os seus Iniciados à experiência do polimorfismo da Alma, fazer a Anabase e a Deificação Hermética. O ritual é uma alavanca semântica que deveria facilitar o elevar da consciência além do peso morto do egosoma, mas deixaram de funcionar porque os seus pretensos Iniciados não apresentam as Qualificações Vocacionais necessárias para o fazer. Os Iniciados andam à volta de Cristo e do Humanismo nos seus rituais como os indígenas no filme “Os Deuses devem estar Loucos” à volta de uma garrafa vazia de coca-cola caída do céu e endeusada em Lapsit Exillis.

Despertar é um Dever Absoluto para todo o genuíno Iniciado. Todas as organizações ditas iniciáticas de onde esteja ausente o Dever de Despertar e se dedicam apenas à tarefa da procrastinação ritual pela retórica teatral da salvação ou da libertação social trazem a marca do declínio e da senilidade, típica do anti-iniciático. A indiferença com que se encara hoje esta degenerescência do mundo Iniciático é a causa da sua transformação num modelo de mera respeitabilidade burguesa.

Os Processos Iniciáticos são imutáveis e arquetípicos, mas as suas formas temporais mudam com a emergência de novos paradigmas cognitivos no Homem, que vão surgindo ao longo da História. Os sistemas iniciáticos mudaram ao longo da História, desde os processos xamânicos do Neolítico aos Mistérios da Antiguidade como os de Elêusis, de Mitra, Dioniso, Ísis e Osíris, chegando ao anquilosamento espiritual dos processos meramente litúrgicos da Missa e da sessão de Loja maçónica da actualidade. Cada modelo iniciático funciona em função do tipo de homem e do tempo que o criou.

Os Processos Iniciáticos caracterizam-se por serem Impulsos Não-Humanos trazidos através da consciência desperta de um Mestre Iniciado, como forças de transmutação da estrutura padronizada do ego, de transformação da pedra em diamante. Para isso acontecer é necessário que cada Iniciado se prepare para transformar a sua egoconsciência num veículo ao qual possa descer a dimensão espiritual de forma a poder receber e comunicar o Verbo, a Gnose. Contudo, a constante exibição do estado de imbecilidade gnósica das organizações maçónicas através de estratagemas corporativos alienatórios de graus, honrarias, títulos honoríficos e rituais monocórdicos sufocados de lixo bíblico e político, é o sintoma claro da presença de forças de decrepitude nas Estruturas Iniciáticas. Parece que, com todos estes estratagemas, as Obediências tornaram-se vítimas de um processo entrópico de solidificação na respeitabilidade formal de títulos pseudo-iniciáticos que apenas favorece o adormecimento da consciência espiritual do homem e da mulher de hoje.

É o trabalho de transformação, transcendência e transmutação do ego, num pólo antitético ao da humanidade actual, que conduz à experiência não-dual do Despertar Vertical que define o Processo Iniciático. O Homem vive hoje não só num meio caracterizado por uma profunda mutação ecológica e mental, assim como por uma mudança radical das estruturas culturais e económicas, de forma que os contextos e paradigmas da consciência em que se entrosavam os Ritos Iniciáticos Iluminísticos desapareceram. Vivemos um acelerado processo de involução degenerativa da consciência no estreitamento racional e utilitário. Hoje a Evolução não é do domínio da Consciência, mas apenas da sua restritiva operatividade funcional, lógica e social. É preciso que se mudem, por isso, os velhos ritos aos quais não reagem nem os nossos corpos nem a nossa psique.

Vivemos uma aceleração dos poderes de competência da razão e um debilitamento dos poderes da consciência, isto é, um embotamento do campo intuitivo, simbólico e imaginal. A consciência claudicou no processo meramente mecânico e abstracto da racionalidade lógica e utilitária. Somos macacos amestrados a fazerem de conta que são Iniciados, mas que abdicaram de serem Deuses. A consciência não se tem ampliado e desenvolvido à mesma velocidade de transformação da revolução tecnológica e científica. Vive-se num universo de sofisticação tecnológica com a mesma mente do mercador e camponês da sociedade medieval.

A consciência está a definhar no estado vegetativo e reflexo-motor de pessoas que são incapazes de questionar a sua condição ontológica, assim como no racionalismo analítico do dia-a-dia, sem verdadeira autoconsciência e liberdade. Na consciência do homem moderno apenas subsiste o quantitativo e o superficial. O ego tornou-se tão duro, estúpido e rígido, como a pedra de granito que o antigo pedreiro desbastava para edificar palácios, igrejas e castelos. Agora, elas não devem ser mais construídas nem a Reis nem a Deus, mas ao centro transpessoal do homem, ao Ser. É preciso averiguar a que se refere o Homem Livre e de Bons Costumes que convocamos em Loja, pois esses imperativos são de uma ordem diferente da realidade do homem racional e utilitário. Recebe-se em Loja somente escravos de egos fúteis e patéticos crendo que são Livres.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

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Parte 4 – REGULARIDADE E LEGITIMIDADE