MANIFESTO (Parte 1)

DEUS E O HOMEM

O Homem Primordial de que falavam os hermetistas foi assassinado desde que Sócrates foi envenenado, Cristo crucificado, Mansur Al Hallaj assassinado e Shabbathai Zevi humilhado e vilipendiado. Não foi Deus que abandonou o Homem quando se gritou no Monte do Calvário “Elohim Elohim Lama Sabactani”, pois Deus não existe, mas os próprios homens que já esqueceram a Liberdade Iluminativa do Verdadeiro Homem-Deus. Não há Deus algum que nos tenha abandonado como Cristo lamentou, pois Deus é o Homem. Fomos nós que abandonamos o imperativo de sermos quem Somos. Deus é apenas a designação dos cegos e dos prisioneiros das crenças alienatórias das Igrejas. Para os Iniciados do Fogo, este Deus é a Pura Ipseidade do próprio Homem. «Adora Deus… a ti mesmo» dizia Austin Osman Spare, em 1913.

Não há Deus além do Ser, mas a maior parte dos homens nem sequer são o Homem, apenas são as suas caricaturas e deformações, máscaras miméticas degenerativas e transitórias privadas de Espírito. A extinção do Homem e a sua redução degenerativa no macaco humanóide de hoje, produtor e reprodutor do mundo utilitário em que vivemos, o hílico valentiniano, foi iniciada com a perda da sua Liberdade Original pelo recurso retórico ao Pecado Original e a degeneração do Espiritual num sistema alienatório e moralista de igreja e, desde há mais de um século, numa retórica oca de patéticos princípios cívicos e humanistas.

Deus não tem relevância alguma para o Processo Iniciático cujo fim é o da Transmutação do Homem-Gorila, o Paçu (animal) dos Tantras Kaulas. A omissão de Deus em tantos crimes execráveis da humanidade típica do Homem-Gorila, desde os crimes da Inquisição Católica, do Nazismo, do Estalinismo e da China de Mao-Tse-Tung até aos crimes dos Fascismos, revela a inutilidade tanto da crença como do discurso sobre Deus. O Homem está sozinho e Deus foi criado à sua própria imagem para que servisse de ideal de aperfeiçoamento transmutatório para ser mais do que Humano. Deus é o homem superado na sua própria Ipseidade. Da mesma maneira, todos os valores do Humanismo e do Civismo das Maçonarias Profanas e das Maçonarias de Ornamento são inúteis. Irrelevante para a Iniciação é toda a consideração de natureza cívica e moral. Embora respeitável sob o ponto de vista do rebanho social, não tem qualquer relevância sob o ponto de vista iniciático stricto sensu. O Homem da Iniciação está para além do pequeno homem moral, reprodutor, racional e produtivo desta sociedade da grei. O Primeiro Iniciado foi Eva e depois Qayim, que rejeitou o Deus Criador ao modelo do Gnosticismo, o Filho da Serpente do Conhecimento, a Sophia Sapiencial, segundo o Zohar.

Múltiplas foram as vezes em que o Homem ressuscitou desde Qayim como um Deus de Fogo, um Tubal-Caim glorificado no seu alter-ego Azazel, como fará Salomão com o seu alter-ego Asmodeus, levantando-se da imagem menor e socialmente domesticada de si mesmo a que chamamos Humano. Não há Deus nem Igreja alguma que possa parar esse Poder Dinâmico Interior que, através das suas muitas metamorfoses espirituais, o transporta além do próprio Humano, até ele próprio se tornar “além de Deus”, como diz o poeta Fernando Pessoa no “O Caminho da Serpente”, Pura Ipseidade. Não foi o Cristo eclesiástico que ressuscitou das suas múltiplas crucificações no teatro paródico da missa cristã, mas o Homem Primordial que será um dia o Homem Futuro, a sua essência transcendente antitética, esse Homem-Daimon de que fala o “Poimandres” e o “Prometeu Agrilhoado” e que desde o Parzival do mundo germânico medieval, desde o Fausto do Iluminismo alemão, o grito zaratustriano de Nietzsche, até à Verdadeira Vontade da erupção telémica moderna, se tem erguido do embotamento espiritual e da alienação de massas a que o têm condenado todas as igrejas, mesquitas e sinagogas abraâmicas. O Verdadeiro Iniciado neste Novo Aeon é o seu Inimigo.

O Homem-Daimon, tal como a Fénix, emerge das cinzas a que as igrejas e os dogmas políticos e religiosos o querem condenar: das cinzas da inquisição, dos campos de concentração, do amordaçamento pelos dogmas, a doutrinação, a domesticação e estupidificação da sociedade de consumo. No século XX, o enterro do Homem Esotérico começou com o sufocamento da sua Liberdade Espiritual, do seu direito inalienável de erguer-se acima das nuvens de onde atirará a divindade fantasma que aliena a humanidade da sua regência sobre o mundo dos crentes imbecis.

A Liberdade Anagógica foi adiada na Franco-Maçonaria com a sua sujeição a regras canónicas inventadas por René Guénon. Perpetuaram, desde então, no seio dos grupos maçónicos e paramaçónicos, como uma fórmula de mera abdicação e procrastinação do processo de Iluminação Espiritual. A sua estreiteza gnósica, uma oportuna designação criada por António Quadros, levou Guénon a considerar a Contra-Iniciação como um paradigma anti-iniciático típico das Antigas Iniciações Pagãs de carácter imanentista e prometeica. Na Era Iniciática que desde há mais de cem anos emergiu com os vaticínios tanto de Rudolf Steiner como de Aleister Crowley (1904) afirmamos a nossa repulsa às teses canónicas guénonianas que mumificaram os ritos maçónicos na legitimidade da perpétua procrastinação da iluminação gnóstica e no mundo paródico cristão e humanista. Na realidade, aquilo que Guénon condenava como sendo o Anti-Iniciação revela ser a chave secreta, a pedra desprezada de uma nova Aventura Iniciática e de uma consciência abarcante e holística, onde corpo e espírito se conjugam na nova filosofia operativa do Andrógino Primordial.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

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Parte 2 – A ORDEM E A OBEDIÊNCIA