LINHAGEM

A LINHAGEM INICIÁTICA: UM PONTO DE VISTA ESOTÉRICO

O tempo em que tudo o que era Iniciático era da esfera do secreto e do íntimo, dirigido apenas a pessoas de elevado Espírito, cooptadas através de contacto directo e pessoal, parece ter-se tornado obsoleto diante dos meios tecnológicos modernos de comunicação e difusão. Contudo, isso tem um preço: a exposição a um universo de inaptos e imbecis, sem vocação para conduzir o Processo Iniciático, que o confundem com a alienação nos valores sociais e humanitários. O Iniciático foi, além disso, banalizado para designar o que os americanos classificam de trash literature, esse tipo de literatura panfletária para dona de casa associada ao tarot, reiki, runas, desenvolvimento pessoal, etc. Devemos questionar não só o significado convencional desta designação como a dos próprios grupos que se designam iniciáticos. O que devemos sobretudo avaliar é a sua autenticidade, não tanto a formal, mas sobretudo a substantiva, isto é, a autenticidade operativa e gnóstica dos seus processos iniciáticos. Na maior parte dos casos, eles nem sequer existem.

Questões de Semântica

Na verdade, as palavras Iniciação e Iniciático sofreram ao longo dos séculos XIX e XX uma profunda erosão e perversão semântica chegando ao estado de declínio e superficialização em que as usamos hoje, sem qualquer relação com o seu sentido original de uma Via Heróica de Transmutação Espiritual. Isso deve-se à confusão semântica do conceito de Rito de Iniciação com o de Rito de Passagem, como acontece nas actuais Maçonarias Profanas.

É precisamente desse tipo de Maçonaria, como o representado pelo Grande Oriente de França, que encontramos o primeiro exemplo bem conhecido, quando o Príncipe Murat foi iniciado em 1859 num só dia nos graus de 1 a 33 do R∴E∴A∴A∴. Ninguém, pelo que parece, estranhou ou questionou esta forma de Iniciação por atacado. Iniciou-se a moda de patrocinar uma forma de legalidade iniciática definida em função de uma transmissão meramente honorífica. A partir desse momento foi rápido o passo para a Iniciação poder ser adquirida por mera certificação formal, patente ou carta. No início do séc. XX Theodor Reuss (1855 – 1923) aplicou precisamente esse método. No entanto, é necessário esclarecer, estas transmissões foram feitas a pessoas que apresentavam uma condição espiritual e ontológica de sobre-humanidade, de excepção e superioridade de Espírito em relação ao espírito larvar das massas que hoje frequentam as organizações maçónicas profanas, como foi o das Transmissões Iniciáticas de T. Reuss do M∴-M∴ a Rudolf Steiner, Papus ou Aleister Crowley.

Embora a situação acima apresentada seja sempre uma excepção, que decorre da superioridade espiritual de quem a recebe, existem outros exemplos que revelam o sentido de degradação da Maçonaria Profana. Exemplo desse modelo foi o processo de “Iniciação” de Marie Deresmes,  a fundadora do actual Direito Humano, por Gaston Martin, da Loja Libres Penseurs du Pecq, que nem por acaso era do mesmo G∴O∴ F∴, que num fim de semana foi iniciada desde o grau de Aprendiz ao 33º. Não estranha, por isso, que Teder, então Hierofante da Grande Loja do Memphis-Misraim de França, por linhagem de Papus, tenha na revista maçónica Hiram  declarado o Grande Oriente de França  irregular sob o ponto de vista iniciático stricto sensu.

Foi assim que a maior parte dos pretensos Altos Iniciados das Maçonarias de hoje, de Igrejas Gnósticas e sociedades Rosacrucianas do fim do século XIX e inícios do século XX, chegaram aos Altos Graus, transmitindo certificações e patentes, como fez abundantemente Theodor Reuss e John Yarker (1833 – 1913), embora os casos destes últimos revelem que foram feitos com base em escolhas direccionadas a pessoas espiritualmente excepcionais que apresentavam a marca de um estado sobre-humano típico do Alto Adepto.

Sob o ponto de vista iniciático, a Linhagem Tradicional não é transmitida por certificação física de um papel enobrecido de títulos pomposos, selos e marcas honoríficas. Isso são apenas letreiros vistosos para o ego. A Linhagem recebe-se de forma personalizada, in sancti locus, por um ritual específico de carácter anagógico. Porém, a Iniciação esotérica só é totalmente actualizada quando for posteriormente reificada através de uma ascese gnósica ou uma praxis teúrgica e alquímica.

Foram as constantes transmissões de iniciações de papel para recipiendários medíocres e sem elevação espiritual que resultaram na decadência das Linhagens actuais. A isso adiciona-se o relaxamento praticado no recrutamento pelas Lojas maçónicas ao aceitar candidatos sem exigir as qualificações mínimas necessárias para o Trabalho Iniciático. Foi essa tendência para o quantitativo que destruiu o Trabalho Maçónico. Elas deixaram de ser esotéricas para se tornarem exotéricas e profanas, transformadas num protocolo de recrutamento associativo.

Vivemos numa época fascinada por acumular Linhagens e Graus através de certificados ou então através de uma indução teatral de graus. Criam-se Iniciados de cartoon, sem nenhuma experiência substantiva do conteúdo epifânico da própria Iniciação e Linhagem que se recebeu. São os chamados Iniciados de Papelão, tal como os “tigres de papel” com que foram designados muitos dos líderes e títeres políticos da Ásia por Mao Tsé-Tung.

Toda a instituição iniciática autêntica tem na sua posse documentações que comprovam pertença a uma Linhagem. Resta saber, no entanto, se essa Linhagem continua a ser Tradicional, isto é, contendo dentro de si Impulsos Iniciáticos que conduzem à metamorfose da Alma ou, então, se não é apenas um protocolo administrativo e uma contrafacção teatral. Na verdade, pertencer não é o mesmo que ser da Linhagem. No primeiro caso, trata-se apenas de uma atribuição superficial e adjectiva, meramente exterior. É o mesmo que ir a uma sapataria de marca e comprar a caixa vistosa da sapataria e exibi-la diante de todos, mas sem ter os sapatos, apenas papéis amarrotados. É o que acontece na fabulosa multidão de graus e títulos pretensamente iniciáticos das Maçonarias Profanas, mas que não contêm nenhum conteúdo genuíno de Transmissão Gnósica.

Esses conteúdos, caso existam, têm ainda de ser compreendidos, assimilados e depois reificados por um trabalho pessoal de transmutação do ego e sua dissolução na dimensão espiritual da Linhagem; caso contrário, não existe Transmissão de nenhuma Linhagem. Esta será apenas um fantasma mental, pura verborreia retórica da qual está ausente a experiência subversiva da Gnose. Ela faz parte dessa tendência universal  de reduzir o Iniciático no seio da Maçonaria a um teatro egocêntrico de sombras pueris, do qual está ausente o epifânico, um mero placebo ritual caracterizado por títulos ocos.

Dois Aspectos da Linhagem

Pouca gente sabe hoje que, sob o ponto de vista iniciático, a Linhagem tem dois aspectos, tal e qual como o próprio ser humano no qual ela incarna: uma dimensão material e outra espiritual. No seu aspecto material, a Linhagem tem uma dimensão externa representada pelo verniz exterior dos títulos ocos e pomposos que hipnotizam de orgulho os ignaros que os recebem; por outro, tem uma dimensão interna esotérica representada pelos processos de trabalho transformativo, o equipamento litúrgico, cerimonial e mágico, pela metodologia e apetrechamento laboratorial, assim como pelas regras de trabalho sobre o próprio composto humano que conduzirão mais tarde à Gnose e à conclusão da Grande Obra. Ela é o arcabouço físico que permite materializar os impulsos gnósicos recebidos pela Iniciação, quando evocada da Tradição Primordial e manifestada no plano físico de uma praxis e theoria.

Não confundamos, contudo, o interno com o interior, que são dois níveis diferentes de realidade e significação. O primeiro é da natureza do mero existir subjectivo profano e o segundo é a expressão objectiva do Ser. Assim, a dimensão interior da Linhagem é representada pela sua dimensão espiritual e não-humana, aquilo que, desde René Guénon, se chama a Influência Espiritual. Para que esta Influência Espiritual possa ser transmitida, ela terá de ser feita de modo adequado e pela pessoa adequada, actuando como fermento transmutatório sobre um candidato adequado, expandindo a consciência do Iniciado, primeiro em sonhos, depois em estado de lucidez iluminada e, por fim, na própria existência.

Quando o Venerável Mestre Iniciador não converteu a Influência Espiritual que recebeu num estado gnóstico e numa compreensão supra-racional e não a coagulou posteriormente na sua existência física, não pode transmitir absolutamente nada sob o ponto de vista iniciático a não ser a ilusão de que transmite uma Iniciação. O que não se tem nem se é, não se pode transmitir a ninguém. Assim, para que a Iniciação actualize a Linhagem, isto é, para que o vaso humano receba o vinho sapiencial, é absolutamente necessário não só que aquele que o transmite o tenha, mas que aquele que o recebe tenha esvaziado a sua pessoa como recipiente sensível e inteligível, isto é, se tenha libertado dos condicionamentos morais, culturais e religiosos que definem o rebanho humano, o mundo profano. É  a esse tipo de pessoa que chamamos de Homem Livre em termos esotéricos.

O Iniciador deve deter não só o conhecimento sagrado (Theoria) e o modo de uso e aplicação (Praxis) dos meios consagrados de uma dada transmissão iniciática, representados por rituais e consagrações, mas deve já ser um Adepto, isto é, ter realizado em si mesmo os Impulsos recebidos em Iniciação. Só assim, tem o Poder para verdadeiramente os transferir. Ninguém pode transmitir uma dimensão elevada se não se elevou a essa mesma dimensão.

Desde o século XVIII que este dilema do Iniciado Falhado versus Iniciado Realizado tem trazido um grande problema às Linhagens Iniciáticas Maçónicas e Neo-Rosacrucianas. Isto, pelo simples facto das transmissões serem feitas por Iniciados Falhados, em quem a própria Transmissão da Linhagem já deixou de ser possível. O que se transmite é apenas a ilusão teatral criada pela solenidade das logorreias de inspiração bíblica e jacobina, dramatizadas cerimonialmente num círculo fechado de crentes, o que se poderia chamar hoje de Maçonaria de igreja ou partido, tornando-se num mito de alienação selectiva em vez de ser um mito de Iluminação Epifânica.

O Mito e o Rito

É pelo facto da Linhagem albergar sempre um Mito, por exemplo o mito de Tubal-Caim e Hiram na Maçonaria Simbólica ou a metáfora do Iniciado encontrando e recebendo a Luz no seio da Montanha de Abiegno e diante do túmulo de Christian Rosenkreuz, seu próprio Duplo Espiritual, nas tradições rosacrucianas originais, que leva a que, por vezes, se possa dizer que a Recepção Iniciática da Linhagem é a recepção de um Mito transmitido de uma determinada maneira. O Mito é um esquema arquetípico exemplar que serve de template para a vida do Iniciado. Com esta ideia de Linhagem o que se transmite já não é uma Influência Espiritual, isso porque o Mestre não consegue pelo peso entrópico da sua contingência humana erguer-se à dimensão supra-sensível. O que transmite, então, é a possibilidade de viver um Mito através de um simulacro ritual que funcionará como placebo.

Nas organizações maçónicas modernas, de onde já está ausente a Influência Espiritual, existe, em vez disso, dois elementos na sua Transmissão Iniciática: o Mito e o Rito. O Rito tomado aqui como o meio solene exterior e específico da sua transmissão. Na verdade, é a maneira tradicional como se transmite o Mito durante a Iniciação em ritual que é a condição sine qua non para se fazer hoje a Transmissão da Linhagem. Uma Transmissão Formal, entenda-se! Na verdade, essa transmissão já não é a transferência de um Poder de Anamnese Epifãnica porque os Mestres já não se podem elevar à dimensão Supra-Sensivel e Supra-Individual, mas um processo formal que pertence ao discurso típico de uma comunicação teátrica e à esfera do placebo psicológico. A Transmissão pelo Mito advém da completa ausência de uma condição iluminada na pessoa que faz essa Transferência da Linhagem. Ela é, por isso, a expressão da condição decadente e do estado de degeneração das Iniciaçoes Modernas. A Linhagem já não é um Poder, mas um Discurso.

A chamada Influência Espiritual funciona agora apenas através do fantasma do Egrégore Akáshico das memórias intemporais acumuladas nos níveis supra-semânticos e inconscientes da história mítica da Linhagem. Pode dizer-se que o que determina a transmissão já não é o Mestre, mas a forma específica como o Texto do Mito é passado e mantido secreto no seio da organização. É preciso que se entenda a palavra secreto no sentido esotérico stricto-sensu e não no sentido profano com que habitualmente é entendido, mesmo entre aqueles que pretendem falar de esoterismo. Por secreto referimo-nos a algo que emana directamente do vivido epifânico. Também o Mito precisa de ser vivido pelo Mestre  para ser realmente transmitida a sua virtus.

A Iniciação Teatral e Formal

Além da Influência Espiritual e do Mito Exemplar existe uma terceira alternativa. Aquela que defendeu o pensador René Guénon de redução da Iniciação a uma perspectiva meramente formal de transmissão das Linhagens. Neste caso trata-se de uma transmissão que depende apenas da sua forma exterior e material, sendo independente do grau de realização espiritual do Iniciador, isto é, quando este último não é um verdadeiro Mestre mas um simulacro da Mestria.

O conceito material de Iniciação acabou por se tornar canónico na Maçonaria Tradicional Inglesa e em toda a Maçonaria de Ornamento, precisamente pela vantagem que tinha para legitimar a platitude típica da total ausência de Adeptos Iluminados e a disseminação virológica de Iniciados Falhados num oceano espesso de Iniciados medíocres e ignaros, eternamente presos na procrastinação iniciática. Tudo isto tem ajudado não à Transmissão Espiritual, mas à mumificação dos ritos no nível meramente físico e retórico, no rebaixamento do Iniciático a um permanente «faz de conta», abdicando da perspectiva substantiva e esotérica decorrente da necessidade de uma elevação espiritual para quem a transmite.

A perspectiva formal da Iniciação que prevalece no mundo de hoje desconhece as implicações esotéricas e iniciáticas dos processos obscuros presentes no conceito de Linhagem, resguardando a sua ignorância e impotência, a sua mediocridade e procrastinação espiritual, adiando ad aeternum o dever de encarnar a Gnose e defendendo uma explicação racional típica do crente religioso. Ela acredita ingenuamente que tudo se iniciou num Primeiro Mestre, habitualmente lendário, sendo os seus conhecimentos e fundamentos, a sua praxis e a sua theoria, transmitidos posteriormente a outros Iniciados, numa cadeia formal de Iniciação que passa a sua herança a sucessivos Mestres escolhidos entre os seus Iniciados, até ao seu sucessor actual, de forma ininterrupta, forjando-se documentos pseudo-históricos que comprovam esta Aurea Catena desde sua origem até aos dias actuais.

Na verdade, tudo isso é apenas o aspecto exterior da Linhagem, pois a ideia do Primeiro Mestre refere-se a um estado espiritual primordial, hoje quase completamente perdido como possibilidade cognitiva na Humanidade. Ele não é uma pessoa histórica que passa alguma coisa de carácter físico e honorífico. Ao longo da história, até mesmo as atribuições honoríficas decorrem de uma húbris, de uma ultrapassagem violenta do estado contingente que aliena o humano, típica do Herói. Esse Estado Primordial do Primeiro Mestre exige ser realizado nos sucessivos Mestres que se tornam, a partir de então, as epifanias históricas do Númen. Era assim já nas ordens guerreiras e de Cavalaria medieval, onde os títulos dependiam do sangue vertido em batalha, na obra de oposição com o mundo contingente, para que possa irromper a sua consequente Iluminação.

A Cadeia de Mestres Falhados

A Tradição perdeu-se e a sua cadeia quebrou-se sempre que a sua sucessão foi feita através de Mestres Falhados, na realidade Falsos Mestres, que se deixam embevecer pelos títulos ocos das Linhagens que receberam e não realizam nem compreendem  o estado metafisico correspondente, representado no Primeiro Mestre. Assim, tanto se rompe a continuidade da sua força subtil epifânica e espiritual como se rebaixa ao baixo egrégore criado por Mestres falhados e ignaros. A Linhagem fica reduzida a uma grande sombra a que chamamos o Egrégore Psíquico, enquanto soma emanatória da força de entropia da sua Alma Grupo feita de eternos falhados e procrastinadores, gerada pela eterna insipiência de Mestres e Discípulos inscientes que fazem de conta pela eterna mimética da posição formal de Mestres e Discípulos, que se reproduzem em cadeia sem qualquer conexão com a Fonte Imanifestada do plano espiritual que a criou.

Na verdade, a transmissão da Linhagem rompe-se sempre que encontra a opacidade de sucessivos Mestres falhados. A Iniciação deixa de estar ligada à Influência Espiritual da Tradição e dessa maneira ao Centro Primordial de onde eternamente emana. Essas Transmissões rebaixam-se a um egrégore criado a partir da força gerada da alienação de sucessivos Iniciados Falhados que contaminam a Linhagem e quebrando a relação interior aos Mestres do Passado e ao Númen. Uma Ordem Iniciática só é válida se a Linhagem for transmitida por Mestres esclarecidos e iluminados pela experiência gnósica.

As Linhagens Iniciáticas da Tradição reconhecem-se pelos laços fraternais de poder sapiencial e não pelo mero costume formalizado em ritual, assim como pela Cadeia Iniciática viva de Mestres Realizados. As suas documentações e cartas sucessórias nada comprovarão, caso isso não tenha acontecido, senão a ilusão narcísica e a alienação. É o que o Mestre Tibetano Chogyan Trungpa chamava de “materialismo espiritual”. O principal trabalho dos representantes de uma Linhagem, assentes nas figura dos seus Hierofantes, é manter o fluxo vertical descendente da Força Iluminante para os seus Iniciados, através da sua Consciência Iluminada, por forma a que as práticas tradicionais da Linhagem, a chamada Tradição, permaneçam em permanente contacto interno com a Fonte. Assim, serve de estímulo e orientação ao desenvolvimento transpessoal dos seus Iniciados e ao cumprimento do seu Dever de Acordar e Despertar e ser mais-do-que-humano.

É de suma importância que o interessado pelos Processos Iniciáticos de transformação radical do ser humano tenha cuidado com instituições que não estão ligadas a uma Linhagem autêntica e que dependem apenas da força de coesão social do seu Egrégore Psíquico. A genuína Linhagem iniciática reactualiza-se em cada geração; caso contrário, asfixia e morre em formas ossificadas de ritual, já sem os necessários contactos vivificantes internos. Ela tem, por isso, tendência a ser uma Corrente Criativa que se vivifica eternamente em contacto com práticas e ensinamentos que muitas vezes são similares e fazem parte da mesma tradição hermética universal.

Viu-se isso na assimilação criativa da Cabala no século XVIII e das tradições do Laya Yoga e do Tantrismo no fim do século XIX, da Antroposofia por Rudolf Steiner dentro da sua Maçonaria Cognitiva ou mesmo da filosofia e práticas do Voodoo e Gnosticismo na reformulação do Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraim feita por Michael Bertiaux, nos meados dos anos 70 em Chicago. O que define a Tradição não é a obediência insciente e ignara a regras e rituais mumificados ao longo da História, meros ritos administrativos, mas aos Princípios Metafísicos que ela encarna e que devem ser adaptados em função da Arte dos seus Iluminados às contingências dos tempos históricos em que vivem.

A Maçonaria como Gnose

Desde a Antiguidade que os processos gnósticos de carácter iniciático se baseiam na tendência sincretista e nas práticas em laboratório mágico e alquímico que decapitam os modelos padronizados e mortos das Tradições recebidas. A raiz de uma Linhagem é o Primeiro Princípio da Criação, o Imanifestado. A Tradição deve esforçar-se para que a permanência dos seus Princípios Eternos se manifestem através do véu da dualidade em modelos iniciáticos que sirvam de veículo e inspiração para a Gnose.

Todos os Hierofantes, ao contrário dos Sumos Sacerdotes que tendem a asfixiar os processos de criatividade mágica em modelos estagnados de Igreja, mantêm o Conhecimento Original, renovando-o e transformando-o em cada Era. Essa é a verdadeira forma de perpetuar a Linhagem, impedindo a sua ossificação temporal na estreiteza do dogma doutrinal e ritual, renovando em nosso plano físico o conhecimento universal mais adequado ao desenvolvimento meta-cognitivo e transpessoal.

O plano físico e psíquico são caracterizados pelo movimento e a multiplicidade. Em cada Era esse movimento altera-se, muda de sentido e renova-se, da mesma maneira que a genuína Linhagem Mágica. Poderá dizer-se, então, que o Caminho da Verdadeira Linhagem é sempre tortuoso como a Serpente Sapiencial, é uma Cunning Craft. É por isso que a Serpente deve estar sempre nos Brasões dos nossos Hierofantes e da nossa Linhagem Menfítico-Misraímica, tal como vemos representado através do Ouroborus envolvendo o Ovo da Criação, o Kneft do Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraim.

Quando um Iniciado se encontra dentro de uma Linhagem Iniciática espiritual autêntica, beneficia desta tendência criativa que tem o poder de se actualizar de modo diferente em cada ser humano, em acordo com a sua Verdadeira Vontade. Só assim é possível a frutificação permanente de um trabalho mágico e iniciático, manifestado por várias gerações passadas e comungando de todas as bênçãos e maldições que fazem parte das Forças Transformadoras que ao longo dos ciclos seculares emergem das profundezas da matéria e actuam no nosso plano, auxiliando a nossa jornada trans-evolutiva.

Quando o Iniciado traz as qualificações iniciáticas requeridas e é iniciado por um Mestre «devidamente preparado e qualificado», isto é, Iluminado, então ele ou ela é conectado/a a esta Energia de Transformação Sapiencial e Gnósica que é a Essência Serpentina da nossa Linhagem Iniciática. Através dela, liga-se aos Ancestrais, seus Guardiões, e beneficia do impulso catabólico de toda a sua Cadeia ou Corrente, empurrando-o para a frente, para o Futuro, o Eterno que é o começo do Todo e é encontrado a cada momento intemporal do Eterno Agora.

Dessa forma, a Serpente Ouroborus abraça e fecunda o/a Filho/a dentro do Ovo da nossa estrutura humana inconsciente, como se vê representado no grau 87 do Rito do Sublime Príncipe da Maçonaria e Grande Regulador da Ordem da Cavalaria do Knef do Memphis-Misraim e no avental do Hierofante nos Graus 96 e 97, e realiza-se em nós através de sucessivos graus de escamação e iluminação. Sem a Linhagem Espiritual, isto é, da sua Influência Espiritual Serpentina, as Ordens Iniciáticas tornam-se meramente Obediências, sucedâneos profanos de Igrejas e Partidos, estruturas administrativas sujeitando-se à força da entropia materialista e da alienação dogmática e submetendo-se ao poder fascinador da Ignorância.

© Gilberto Lascariz & S∴S∴H∴L∴

(Revisão de Melusine de Mattos)

61662D73-53C5-4F9D-9906-90F03348A7D9